CAPITALISMO: uma religião sem sonho e sem perdão – parte 1

CAPITALISMO: uma religião sem sonho e sem perdão – parte 1

“É preciso ver no capitalismo uma religião” Esta é a frase inicial do fragmento de kapitalismus als religion (1921), obra de Walter Benjamin.   O fragmento remonta a época da Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão, onde havia um desconforto no sistema capitalista, desconforto esse que ascende novamente nos dias atuais.   O interesse de Benjamin se deve a sua leitura de Weber e a seu entusiasmo por Nietzsche, assimilando e discutindo por duas noções fundamentais: o desencantamento do mundo de Max Weber e a morte de Deus de Friedrich Nietzsche, duas noções que, a princípio, negam o valor dos paradigmas religiosos. 

Principalmente no Ocidente, o Capitalismo tornou-se o parasita do cristianismo de tal modo que, a história deste é essencialmente a história daquele, ou seja, o cristianismo se converteu em capitalismo. Um exemplo é a substituição da adoração dos santos da igreja católica pelo culto dos astros do esporte ou estrelas de cinema. O Capitalismo se tornou fundamental para satisfazer as preocupações, angustias e inquietações que envolvem o ser humano. Estes sentimentos se tornaram fermento para o novo grande produto do Capitalismo Contemporâneo: “a segurança”, que em nova roupagem, vende a redenção como mercadoria.  Ressalta-se que o Capitalismo não possui somente origens religiosas.  Ele possui um culto incessante e impiedoso, que conduz os seres humanos à Casa do Desespero. Nas palavras de Agamben:

O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.

CAPITALISMO: uma religião sem sonho e sem perdão – parte 1

O Capitalismo é baseado no principio da mudança permanente, acabando com o que é “encantado”, dissolvendo tudo em prol da mercadoria, um fenômeno que Max Weber designa como “desencantamento do mundo”. Segundo Benjamin, o capitalismo como religião da modernidade é definido por três características que integram sua estrutura, quais sejam:
 
1 - CULTO PURO: O Capitalismo é puramente cultual, talvez a mais extrema que se tenha conhecimento. Entretanto não possui qualquer dogma ou teologia.  Um culto puro de trabalhar e ganhar, uma adoração ao trabalho a fim de aumentar os lucros. Os comércios são as catedrais e as feiras do mundo são os locais de peregrinação.

2 - PERMANÊNCIA: O Capitalismo, enquanto culto, não conhece pausas, ele é onipresente no tempo, pois todos os dias há consumo, todos os dias são de festa para celebrá-lo. É a celebração de um culto sans revê et sans merci. As práticas capitalistas dominam a vida dos indivíduos integralmente, torna-se um sistema dinâmico, em expansão global, sendo impossível de se deter e do qual não se pode escapar.

3 - CULPABILIZAÇÃO: Diferente de outras religiões o Capitalismo não proporciona expiação, ou seja, sem redenção, ele evoca uma sensação crescente de culpa. Essa culpa é o que se agarra ao culto, mas não para expiá-la, mas sim para torná-la universal. Segundo Burkhard Lindner, a perspectiva histórica do fragmento baseia-se na premissa de que não podemos separar, no sistema da religião capitalista, a “culpa mítica” da dívida econômica.  A culpa se baseia no endividamento para com o capital, perpétua e crescente, onde nenhuma esperança de expiação é permitida. Essa não é uma “dívida moral” do conceito bíblico ou cristão e sim uma “dívida natural”, segundo o qual a vida é em si, sobrecarregada de culpa.  

CAPITALISMO: uma religião sem sonho e sem perdão – parte 1

E Deus esta envolto nessa culpa, pois se os pobres estão condenados à exclusão social é porque “é a vontade de Deus”, ou seja, vontade dos mercados. A única salvação reside em intensificar o sistema na expansão capitalista, no acumulo de mercadorias, agravando ainda mais o desespero.   O resultado do processo “monstruoso” de culpabilização capitalista é a generalização do desespero. O Dinheiro em forma de papel seria objeto do culto, análogo ao dos santos das religiões cristãs, o deus Mammon, ou segundo Benjamin, “Plutão, o Deus da Riqueza”.

No fragmento é mencionada uma passagem contra o poder religioso do dinheiro: está no livro Aufruf zum Sozialismus, do pensador anarquista judeu-alemão Gustav Landauer, publicado em 1919. O dinheiro se torna um Deus totalmente diferente do anterior, pois incita o aumento do desejo humano ao infinito, retira as barreiras deixando uma imensidão concretamente destrutiva da natureza. Aumentando os possíveis objetos de discórdia entre as pessoas por meio de estratégias expansionistas, como a produção em massa, retornando sacrifícios em seu nome.  

O Capitalismo é criado como uma construção metafísica, pressupondo a fé em suas obras ou na onipotência do dinheiro como chave final para a salvação e a liberdade.  
 
CAPITALISMO: uma religião sem sonho e sem perdão – parte 1

A crença é uma liberdade religiosa tão típica como a esperança de ser capaz de comprar a salvação, através do acumulo de dinheiro.  Como visto, no fragmento de 1921 de Benjamin, o Capitalismo pode ser considerado uma religião puramente cultual e completamente impiedosa. Por sua vez, diferente das outras religiões não possui cunho expiatório, e sim um caráter culpabilizador. O fim deste processo é a generalização do desespero, pois essa religião não tem como objetivo a reforma do ser, mas sim a sua ruína.  

Deste modo, levando em consideração a religião do capital, a única salvação reside na intensificação do sistema, na expansão capitalista, no acúmulo de mercadorias o que só serve para aprofundar a angústia desesperadora. É o que parece sugerir Benjamin com a fórmula que faz do desespero um estado religioso do mundo "do qual se deveria esperar a salvação".   Por fim nas palavras de Benjamin: precisamos de uma revolução, isso é, puxar os freios desse trem louco.

Obs: as imagens foram retiradas do ensaio de Horoba Hagen e Andreas Fuchs, com mais de quatrocentas imagens de publicidade com referências religiosasFonte


[1] No estudo de Max Weber na obra “A ética protestante e o espirito do capitalismo”, o autor descreveu o calvinismo como a causa religiosa do capitalismo.
[2] entrevista concedida a Peppe Salva e publicada por Ragusa News, 16-08-2012
[3] - Mammon é dinheiro elevado à categoria de Deus [Jung Mo Sung] Poucas coisas têm o potencial de substituir Deus como o dinheiro. O dinheiro é o maior ídolo potencial. Quando o dinheiro é seu escravo, ele se chama dinheiro. Mas quando o dinheiro é seu senhor, ele se chama Mammon. Retirado de: GUIAME, disponível em: <http://www.guiame.com.br/noticias/colunistas/ed-rene-kivitz/quando-o-dinheiro-se-torna-mamon.html> acesso em: 01/09/2017

Dica de leitura : 

        AGAMBEN, Giorgio.
Benjamin e o Capitalismo. Traduzido por Selvino J. Assmann. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/520057-benjamin-e-o-capitalismo-artigo-de-giorgio-agamben
AGAMBEN, Giorgio. Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro. Entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News, 16-08-2012. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/512966-giorgio-agamben
AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.
Boltanski , L. & Chiapello, E. (2009). O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes.