Nós dormimos: a sociedade do cansaço e a cultura da positividade

Nós dormimos: a sociedade do cansaço e a cultura da positividade

Recentemente participei de um concurso público onde o tema da pergunta dissertativa era a Sociedade do Cansaço um tema recente e de grande debate. O seu estudo se iniciou com o filósofo alemão Byung-Chul Han, professor de filosofia na Universidade das Artes de Berlim (UdK). 

Em sua obra The Burnout Society, lançado no Brasil como “Sociedade do Cansaço”, aduz que na atual sociedade competitiva e de orientação ao serviço, se origina impactos no individuo de forma a produzir distúrbios como depressões, déficit de atenção até mesmo transtorno de personalidade limítrofe. O trabalho de Han se inicia com duas metáforas biomédicas, sendo a primeira para descrever o séc. XX como uma era “imunológica”, devido as infecções com vírus e bactérias serem as principais causas de doenças e mortes nesse período, desencadeando o surgimento de vacinas e antibióticos com o intuito de conquistar imunidades. 

Tal termo foi estendido aos eventos políticos e sociais, pois uma vez que o sistema imunológico detecta bactérias e vírus como organismos “estrangeiros” que precisam ser eliminados para proteger o “eu”, analogicamente, as duas guerras mundiais e a guerra fria utilizaram o mesmo sentido de “nós” contra “eles”. De outra forma, a segunda metáfora trata de descrever o séc. XXI como uma era “neuronal”, caracterizada por doenças neuropsiquiátricas, como por exemplo depressão, déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), síndrome de burnout e transtorno de personalidade limítrofe. 

A diferença entre os dois séculos está em que na era imunológica, havia claramente a distinção entre micróbios estrangeiros que precisavam ser eliminados e o “eu”, o que difere da era “neuronal”, pois as doenças neuronais dificultam a atribuição do organismo inimigo do “eu”. Quem são os inimigos na depressão ou no transtorno de personalidade limítrofe? Nossas escolhas de vida? Nossos empregos? Ou o ambiente onde vivemos? 

No entendimento de Han, essa mudança biomédica em doenças, reflete uma mudança política devido a globalização, onde se torna difícil definir o “eu” e o “estrangeiro”. Logicamente que não se entra aqui em discussões relativos a neurociência, vez que são metáforas simples, que não se atentam as bactérias multirresistentes, aos distúrbios neurais ou mesmo os papeis centrais de empresas biomédicas no séc. XXI. 

Se o exemplo utilizado foi mal escolhido, é indiferente quando se foca nas ideias de Han. Para ele, a causa de quando estamos com sensações de exaustão e cansaço é porque estamos cercados por uma cultura de positividade. Pode ser no trabalho, acessando a internet, ou vendo netflix ou TV, somos apresentados por mensagens não sutis do que podemos fazer. Um exemplo utilizado pelo autor é o slogan da campanha presidencial de Barack Obama “sim nós podemos”, que sugere que tudo o que precisamos fazer é tentar cada vez mais e que pode haver limites para o que conseguimos. Outro exemplo pe o slogan “Just Do It” da Nike e os diversos livros de autoajuda que reforçam a imposição de pensamento positivo e ações positivas no dia a dia. 

Ao invés de vivermos em uma “sociedade disciplinar” em que nosso comportamento era regulado pelas proibições e mandamentos sociais, vivemos hoje em uma “sociedade de conquistas”, onde nos deixamos levar pela pressão de alcançar. Mas não nos enganemos em relação as restrições na sociedade de conquistas, sendo apenas que não estamos mais sujeitos as proibições exógenas, mas nós internalizamos os mandatos de realização, sempre com o esforço de fazer mais, nos tornamos escravos da cultura da positividade, onde se lê “Sim, nós podemos” deve se vê “Sim, nós devemos”, onde ao invés de criar um sentimento de liberdade, na verdade cria uma alienação. 

Han usa a aliteração alemã “Erschöpfung, Ermüdung und Erstickung” (exaustão, fadiga e sufocação) para explicar o impacto que o excesso de positividade desencadeia, uma vez que renunciamos à nossa capacidade de dizer “Não!” O que se percebe é que se tem a propagação de uma positividade excessiva e uma grande disponibilidade universal de pessoas e bens de forma a gerar uma incapacidade de gerenciar experiências negativas. Dessa forma, o estresse e a exaustão se tornaram fenômenos sociais e históricos, causados por uma compulsão incessante por realizações. 

Exemplo claro, retiramos do local de trabalho, pois em uma sociedade de conquistas, os empregadores não precisam explorar seus funcionários, pois voluntariamente, o empregado assume mais tarefas para provar sua autoestima. Dessa forma, são “animais de carga” que se exploram de forma totalmente voluntária, sem nenhuma obrigação externa evidente, onde desempenham o papel de vítima e opressor, e sacrificam suas vidas em um altar auto-referencial. Nas palavras de Han: “Por excesso de positividade, acreditamos que somos livres para trabalhar... até a exaustão.” 

Mas não é só no local de trabalho que existe essa fadiga generalizada e esse mal-estar, pois se está contando as etapas que nós caminhamos com nossos rastreadores de atividades físicas ou competitivamente realizada visitas a museus, nossa obsessão pela realização permeia todos os aspectos de nossas vidas. 

O desespero de não conseguir cumprir expectativas, aqui e agora, no cenário onde todos pensam que estão sendo julgados, cria ansiedade de desempenho em especifico porque as expectativas de realizações são auto impostas. E essa capacidade produtiva e crescimento de realizações individuais vem de um recurso extra: o desejo. O desejo e a realização nunca se sobrepõem perfeitamente. O desejo é nutrido muitas vezes pela falta das realizações, com o consequente tresultado de que o sentimento de superação na realização de assuntos é a necessidade de responder positivamente ao medo de não poder suportar a pressão social. 

Dessa forma, vivemos em um mundo onde há poucas brechas nas atividades, lacunas ou intervalos, pois foi o intervalo é a primeira coisa que o frenesi do desempenho elimina. Sendo assim, surge a pergunta: Existe um caminho para sair do ciclo vicioso de excesso de positividade e exaustão persistente? Han considera que a resposta está no recusar, precisamos reconhecer o valor e a força de dizer “não”, onde introduz o conceito de “cura do cansaço”, pois há uma forma que se deve acolher como oportunidade de descanso e regeneração. 

O fim de semana é uma boa alternativa, ao ser utilizado como tempo de descanso, ociosidade e contemplação, onde devemos escapar do ciclo da exaustão, onde devemos aprender a não fazer um mundo obcecado por fazer. Aqui se utiliza de uma passagem na obra O Narrador - considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. (1985): “ o tédio é o pássaro dos sonhos que encobre o ovo da experiência”. Sendo assim, deve se ver as coisas com um olho encantado, contemplar o mundo que nos rodeia, sem necessitar de utilizar do ego hiper-ativo. 

Sugestão de leitura: 

BENJAMIN, Walter. O Narrador - considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: ______. Magia e técnica, arte e política . São Paulo: Brasiliense, 1985. 

HAN, Byung-chul. Sociedade do Cansaço. Editora Vozes, 2015.