Desejo de poder e a finitude do ser

O desejo de poder é uma reação a constatação da finitude da condição humana, ou seja, nada mais é que uma aspiração humana de dominar e possuir aquilo que precisa e que não possui. Tal tema foi estudado de forma profunda pelo pensador gnoseológico venezolano Ernesto Mayz-Vallenilla, para o qual, o desejo de poder se instala através de uma alteridade, em um mundo onde a pluralidade da realidade é o meio efetivo para sua implantação total, tendo como elemento fundamental a figura dos outros, os seres humanos com quem se convive, pois são alvo da ação e resultado do desejo de poder. 

Entretanto, além dos outros que se convive, o desejo de poder também direciona suas ações na constituição de coisas, bens e valores que para Vallenilla constituem uma espécie de constelação que seria basicamente a vida em convivência, onde ocorrem os confrontos, brigas, e os consensos que originam as relações de poder. 

Tal tema poderá ser aprofundado na obra O domínio do poder (1982), no qual o autor define um componente ético na vida do ser humano para atenuar e combater os vícios e os excessos desse desejo de poder. 

Sendo assim, em resumo, esse desejo de poder de domínio da raça humana é uma resposta às limitações impostas por finitude do ser, de forma a superar seus limites ao expandir seu poder, através do desejo de dominar.


Para que tal domínio possa existir, não pode haver leis inexoráveis ou imutáveis implantadas por uma vontade superior independentemente da sua origem. O homem age sob a influência de uma relação técnica, que é uma dimensão e potencialidade da atividade humana ainda não conhecida e nem dominada pelo próprio agente e operador, onde confronta o mundo sem esconder a tendência de transformar toda a ordem em seu benefício. Assim, o homem exerce o desejo de poder através de forças desconhecidas sem ter um domínio completo ou conhecimento claro do que seja onde a natureza desse poder é ingovernável e imprevisível, podendo se tornar um boomerang ao voltar contra seu operador. 

Tal técnica é uma criação do homem, produto de uma razão obedecida às cegas, tendo sua origem na “subjetividade transcendental” o que mencionei brevemente acima, qual seja, os limites da sua própria finitude. 

E a técnica que se encontra na subjetividade transcendental, também precisa ser instalada na alteridade, que nada mais é que o cenário que abriga todos os seres, coisas, bens, valores, resumindo em “ambiente cotidiano de convivência”.



E é nessas coisas, bens e valores que esta o foco que se desencadeia as paixões, os confrontos a fim de controlar a posse desses, definindo assim as relações de poder. Isso é o que permite que a alteridade seja organizada em uma totalidade, a qual chamamos de mundo comum e compartilhado, onde as manifestações do desejo de poder estão entrelaçadas. 

Dentro dos limites humanos, não se atentando a questões de matiz metafísica, o desejo de poder nada mais é que atitude humana de possuir tudo que não se tem. 

Destarte, deve haver uma relação entre dois ou mais termos, chamados agentes da ação: o agente emissor e o agente receptor. O emissor emite um pedido ou uma ordem que afeta o comportamento do agente receptor, ou seja, um comanda e o outro obedece. Mas para isso deve o emissor possuir uma capacidade ou poder para que o receptor cumpra a ordem ou o pedido. Sendo assim, a relação de poder assume a forma de um domínio do emissor assumido como diretriz de ação pelo receptor. 

Obediência é o que permite o domínio como uma possibilidade virtual e subjetiva do desejo de poder, de forma que o seu cumprimento se torna uma obrigação do receptor. A força imposta por essa obrigação pode se dividir em duas vertentes: coerção ou persuasão. Na coerção, a obediência é baseada no costume, medo ou conveniência, onde o receptor é impulsionado por pressões, compulsões ou ameaças de forma tácita ou expressa, direta ou indireta. Já na persuasão, a obrigação surge em virtude de uma convicção racional, ocorre uma autêntica percepção de dever cumprido, livre e espontaneamente, através de auto-felicitações racionais ou de sua própria vontade. Sendo assim, a obediência está presente como um fator fenomenal onde a estruturação do mundo comum se torna aparente através do desejo de poder. 

Nessa ordem, o domínio é o objetivo perseguido pelo desejo de poder, não necessariamente sobre algo material ou tangível, mas também algo moral ou legal. Então, dominar é um termo que define o significado e o propósito do projeto que sustenta o mundo comum e compartilhado em que o desejo de poder é instalado e desenvolvido. 

Dessa forma, nesse mundo comum e compartilhado, o ser humano desenvolve seu jogo de interesses e intenções, que são divididos entre conflitos e consenso para impor o domínio. Qualquer conflito que surge em torno do poder revela uma oposição e confronto de vontades que, como tal, expressam uma luta, luta ou competição na qual eles contestam ou defendem o domínio de algo. Nesta luta pela obtenção de poder, as vontades se desafiam e entram em conflito. Neste conflito, podemos destacar alguns aspectos que precisam de precisão. Entre estes, destacamos a necessidade da presença ou existência de um ( sobre o que ), ou seja, algo em que surgem desacordos, conflitos ou disputas, que podem ser objetos ou entidades materiais (ideologia, posições políticas, conquistas econômicas), competição para controlar um mercado, entre outros). No entanto, um conflito pode ser resolvido quando a situação que provocou os desentendimentos e lutas conseguir uma solução para estabelecer um consenso. No consenso, o domínio de um sobre outro é substituído por um domínio ou condomínio compartilhado que atua sobre os interesses em discussão. 

Por cabo, uma das áreas onde o desejo de poder mais se manifesta é o econômico, onde a mercadoria como objeto externo e tangível, satisfaz as necessidades humanas de qualquer tipo. Fazendo ligação ao artigo do Capitalismo como religião e o próximo que será sobre o Deus-Dinheiro, tem-se o dinheiro como instrumento universal do desejo de poder, onde o homem acumula riquezas, bens materiais, subjuga os outros e impõe sua vontade na sociedade em que vive. Como desejo de poder, o dinheiro promete ao homem o domínio ilimitado e absoluto da alteridade, torna o dinheiro algo divino. 

Dessa forma, tem-se que o desejo de poder é uma resposta a constatação de finitude do ser humano tendo como finalidade o domínio sobre bens, valores e o outro presentes em um mundo comum e compartilhado, fazendo com que surjam os conflitos, de forma a se perceber a necessidade de se resolver no consenso em um condomínio de poder. 

Dica de Leitura: 

Mayz-Vallenilla, Ernesto. (1982). O domínio de poder . Barcelona, ​​Espanha: Seix e Barral Hnos. AS 

Mayz-Vallenilla, Ernesto. (1974). Esboço de uma crítica da razão técnica . Caracas, Venezuela: Equinoccio Editorial; Edições da Universidade Simón Bolívar.

Leia, também, Dever absoluto da verdade ou o direito de mentir ?, de Marlon Antonio.